Transformações digitais, inteligência artificial e economia do futuro no ecossistema de inovação brasileiro

Plenária da 36ª Conferência Anprotec reúne representantes de ambientes de inovação do Brasil e do exterior, além de atores dos setores públicos de ciência, tecnologia e inovação

Manaus (AM), 1º de julho de 2026 – A velocidade das transformações tecnológicas e digitais tornou-se uma pauta urgente nos ecossistemas de inovação nacionais e internacionais. A partir dessa demanda, a 36ª Conferência Anprotec promoveu a Plenária 4: “Inovação, tecnologia e a economia do futuro – Transformações digitais, inteligência artificial e novos modelos produtivos”, que abordou os impactos dessas mudanças no empreendedorismo inovador e o papel dos ambientes de inovação como motores de desenvolvimento de soluções de alto valor econômico e social.

Com mediação de Jorge Luis Nicolas Audy, Superintendente de Inovação e Desenvolvimento da PUCRS e do TECNOPUC, a plenária reuniu uma banca diversificada de especialistas, com a participação de Hideraldo Luiz de Almeida, Diretor do Departamento de Apoio aos Ecossistemas de Inovação do MCTI; Suelen Scop, Sócia e Diretora Operacional da Singulari Consultoria; Sandra Maria Nunes Monteiro, Secretária da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Ceará; e Donovan St-Hilaire, Diretor de Comunicação e Marketing da Saint-Hyacinthe Technopole.

Inteligência artificial especializada em agrossaúde

No início das exposições, Donovan St-Hilaire apresentou aplicações de novas tecnologias digitais desenvolvidas pelo Saint-Hyacinthe Technopole, parque tecnológico canadense dedicado ao setor agroalimentar, com atuação especialmente nas áreas de saúde animal e processamento de alimentos. O palestrante apresentou resultados do ambiente de inovação estrangeiro, que reúne cerca de 3 mil profissionais, 200 pesquisadores, 150 empresas especializadas, 18 instituições de pesquisa, ensino e apoio empresarial, além de 21 unidades e cátedras de pesquisa.

Com o avanço das tecnologias digitais, identificou-se que um dos principais desafios para a aplicação desses recursos está relacionado ao monitoramento dos dados utilizados no treinamento de inteligências artificiais. Nesse contexto, o Saint-Hyacinthe Technopole desenvolveu a plataforma PIAAS (Plataforma IA-Agrossaúde), que acelera o desenvolvimento de soluções inovadoras em agroalimentação e saúde animal. A iniciativa integra três áreas profissionais: especialistas do setor, especialistas em inteligência artificial e cientistas de dados.

Durante sua apresentação, St-Hilaire explicou que o funcionamento da PIAAS envolve etapas como identificação do problema, seleção e preparação dos dados para treinamento da IA e implementação de ferramentas de apoio ao desenvolvimento de soluções inovadoras. Ao longo de dois anos, a plataforma contribuiu para a realização de mais de 60 projetos nas áreas de produção animal, processamento de alimentos, doenças zoonóticas, resistência aos antimicrobianos e medicina veterinária.

Ao final da apresentação, o palestrante destacou os principais aprendizados do processo. Segundo ele, a transformação digital passou a ser uma missão estratégica dos parques tecnológicos; as infraestruturas digitais tornaram-se tão importantes quanto as estruturas físicas; e os dados e a inteligência artificial passaram a ser considerados ativos estratégicos para a competitividade dos territórios.

Cultura organizacional como motor de desenvolvimento

Em seguida, Suelen Scop apresentou uma análise do cenário de inovação em Manaus a partir da perspectiva da cultura regional amazônica, destacando os desafios relacionados ao letramento em inteligência artificial. “Tecnologias emergentes têm grande potencial para intensificar potencialidades, mas também podem abrir abismos de desafios e desequilíbrios entre as regiões do Brasil, especialmente no Norte”, afirmou.

Em uma perspectiva mais ampla, o território amazonense enfrenta desafios que vão desde a conectividade digital até a compreensão da população sobre a importância e os impactos dessas tecnologias emergentes. Nesse sentido, Scop buscou estimular uma reflexão entre os participantes sobre a necessidade de os ecossistemas de inovação ampliarem seu alcance junto à sociedade.

“O acesso à tecnologia tem transformado a economia e a forma como a gente trabalha. Só vamos conseguir fazer isso se sairmos do ambiente de inovação em que trabalhamos e conseguirmos envolver outras pessoas”, declarou.

Dessa forma, a palestrante destacou o papel da cultura organizacional como elemento estratégico para o desenvolvimento de ambientes de inovação diante do avanço das tecnologias emergentes. Ao final, ressaltou a importância do envolvimento de diferentes atores, incluindo a sociedade civil, na construção de soluções inovadoras alinhadas às necessidades dos territórios.

Articulação do poder público com institutos de inovação

Sandra Maria Nunes Monteiro apresentou exemplos de articulações entre secretarias de ciência, tecnologia e inovação, centros de pesquisa, fundações de apoio ao fomento e programas de políticas públicas. A partir de sua experiência como gestora pública no Ceará, a palestrante destacou iniciativas voltadas à ampliação da oferta de serviços, com o objetivo de torná-los mais acessíveis a um número maior de pessoas.

Além disso, Monteiro ressaltou a importância da conexão entre diferentes instituições e atores do ecossistema de inovação para impulsionar o desenvolvimento social e econômico do país. “Buscamos nos conectar com universidades e institutos de pesquisa para a qualificação de profissionais e, nesse sentido, incentivá-los a atuar para além da academia, contribuindo para a criação de soluções inovadoras”, afirmou.

Segundo a palestrante, o enfrentamento das transformações sociais deve ocorrer, principalmente, por meio da articulação de políticas públicas. “Não há como falar no avanço de processos inovadores sem a articulação de diferentes atores do ecossistema”, concluiu.

MCTI: quatro décadas de ciência, tecnologia e inovação

Representando o Departamento de Apoio aos Ecossistemas de Inovação do MCTI, Hideraldo Luiz de Almeida iniciou sua fala destacando os desafios enfrentados no Distrito Federal durante a implementação de um parque tecnológico. Ao longo dessa experiência, o palestrante participou de debates sobre os modelos mais adequados para a estruturação de ambientes de inovação.

A partir de suas vivências, Almeida ressaltou que um dos grandes desafios do Departamento de Apoio aos Ecossistemas de Inovação do MCTI está relacionado à disponibilização de recursos para parques tecnológicos. Nesse contexto, também foram discutidas perspectivas para o futuro do Brasil como liderança no desenvolvimento tecnológico, especialmente em áreas como transição energética, capacidade de geração de energia e desenvolvimento de novas tecnologias.

Apesar dos desafios, o palestrante destacou os avanços conquistados nos setores de ciência, tecnologia e inovação, considerando os 40 anos de existência do MCTI. “O Brasil não parte do zero. São quatro décadas de construção institucional de ciência, tecnologia e inovação”, afirmou.

Segundo Almeida, as políticas públicas atualmente desenvolvidas pelo MCTI estão alinhadas ao programa Nova Indústria Brasil, iniciativa voltada aos principais desafios nacionais, como a ampliação do investimento privado em P&D, o aumento da presença de pesquisadores nas empresas, o fortalecimento das deep techs, a transformação de pesquisas em escala produtiva e a redução das desigualdades regionais.

Para a implementação dessas ações, o palestrante reforçou a necessidade de articulação contínua entre os diferentes atores do ecossistema de inovação. “O futuro exige coordenação. Criar ecossistemas de inovação exige integração e alinhamento dos atores dentro do território, para que sejam realizados financiamentos capazes de gerar resultados”, destacou.

Rodada de perguntas e encerramento

Após as apresentações, o mediador conduziu uma rodada de perguntas com os participantes, que discutiram temas como modelos de negócios, geração de valor e os diferenciais no desenvolvimento de tecnologias como a inteligência artificial.

Sobre a Conferência Anprotec

A 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação acontece de 29 de junho a 2 de julho, em Manaus (AM), com o tema “Consolidando Ecossistemas: Empreendedorismo Inovador para a Economia do Futuro”. A edição é realizada pela Anprotec em parceria com o Sebrae, com organização local da Fundação Paulo Feitoza (FPFTech) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).