Experiências do Brasil e do Canadá destacaram a confiança, a leitura das vocações locais, a formação de talentos e a articulação institucional como bases para o desenvolvimento regional.
Manaus (AM), 1º de julho de 2026 – O Painel Temático 5 da 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação reuniu, nesta quarta-feira (1º), experiências de ambientes e instituições do Brasil e do Canadá para discutir como ecossistemas de inovação podem contribuir de forma concreta para o desenvolvimento regional. Com o tema “Consolidando ecossistemas para o desenvolvimento regional”, a atividade foi mediada por Artur Gibbon, diretor de Ambientes de Inovação da Anprotec.
Ao abrir o debate, Gibbon observou que a ideia de consolidação dialoga diretamente com a trajetória da Anprotec e de seus associados. “Foi interessante usar ‘consolidando’ no título, porque é algo que fazemos há quase 40 anos, promovendo desenvolvimento regional nos territórios”, afirmou. Ao longo do painel, os relatos reforçaram que consolidar ecossistemas não significa replicar modelos prontos, mas sim construir confiança, reconhecer as vocações do território e transformar conhecimento, políticas públicas e articulação institucional em resultados para empresas, pessoas e regiões.
O primeiro relato foi apresentado por Rodrigo Romão, diretor do Parque Tecnológico Metrópole Digital, em Natal (RN). Ao tratar da evolução do parque, ele destacou que a experiência local foi marcada por aprendizados sobre foco, prospecção ativa e adaptação de referências externas à realidade do território. Entre 2018 e 2025, o Metrópole Digital passou de 31 para mais de 200 empresas associadas, ampliou os postos de trabalho de 400 para cerca de 3.600 e, mesmo após negociar com o município a redução da alíquota de ISS de 5% para 2%, viu a arrecadação municipal do setor crescer de forma expressiva.
Romão também lembrou que, em 2025, o Metrópole Digital se tornou o primeiro ambiente de inovação fora das regiões Sul e Sudeste a alcançar o nível CERNE 4, estágio mais avançado do modelo de certificação de maturidade desenvolvido pela Anprotec em parceria com o Sebrae. Para ele, uma das principais lições do processo é evitar a simples importação de leis, processos e práticas de ecossistemas mais consolidados. “Benchmark não é receita, é referência”, resumiu. O diretor também defendeu que os ambientes de inovação precisam ter clareza quanto às prioridades. “Foco não é o que você vai fazer, é o que você decide não fazer.”
Na sequência, Karine Guilbault, diretora executiva da Saint-Hyacinthe Technopole, apresentou a experiência da cidade de Saint-Hyacinthe, no Quebec, no Canadá. Com cerca de 60 mil habitantes, o território enfrentou, nos anos 1970, o declínio de sua indústria têxtil e passou a apostar em suas competências no setor agroalimentar, em articulação com ativos locais como a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Montreal.
Segundo Karine, essa especialização permitiu a construção de uma tecnópole agroalimentar reconhecida no Canadá, com cerca de 1,4 bilhão de dólares canadenses investidos ao longo das décadas, mais de 200 pesquisadores e cerca de 3 mil empregos qualificados. O ecossistema também passou por uma avaliação internacional de benchmark, ao lado de polos como Oslo e Munique. Mais do que os indicadores, ela destacou a importância das relações de confiança. “A confiança é a infraestrutura invisível, e cresce mais rápido do que a de concreto”, afirmou.
Para a diretora executiva, a tecnópole atua como tradutora entre universidade, empresas e governo, ajudando a alinhar prioridades e aproximar pesquisa e mercado. Ao compartilhar aprendizados, Karine recomendou que ecossistemas em consolidação não tentem copiar experiências de sucesso, mas sim construam seus próprios caminhos, com base em relações consistentes e em métricas capazes de mensurar a transformação. Ela também apresentou, como próximo passo, a estruturação de um centro orientado pelo conceito de One Health, que integra as saúdes humana, animal e ambiental.
O presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, apresentou a trajetória do ecossistema recifense, que completou 25 anos como um dos principais distritos de inovação do país. O Porto Digital reúne cerca de 540 empresas, mais de 24 mil trabalhadores e um faturamento anual da ordem de R$ 7,4 bilhões. Criado a partir de uma lei municipal de incentivo fiscal, em 2000, e de um modelo de governança multissetorial, o parque também se consolidou como referência em regeneração urbana, com a requalificação de prédios históricos no Recife Antigo.
Lucena destacou empresas que nasceram ou se desenvolveram no ecossistema, como a Tempest, referência em cibersegurança, e a Neurotech, empresa de inteligência artificial criada a partir do Centro de Informática da UFPE e vendida à B3. Mas o eixo central de sua fala foi a formação de capital humano. Diante da escassez de talentos em tecnologia, o Porto Digital passou a atuar também na formação de pessoas, com programas de residência nos currículos universitários e o Embarque Digital, que oferece bolsas a estudantes de escolas públicas de alto desempenho.
“Não se faz inovação sem povo”, afirmou Lucena, ao defender que os ecossistemas de inovação precisam ampliar o acesso de jovens às oportunidades da economia digital. Segundo ele, o Embarque Digital recebe cerca de 500 novos estudantes por ano e apresenta uma taxa de evasão equivalente a um terço da média nacional do setor. O presidente do Porto Digital também citou o Rec’n’Play, evento gratuito que aproxima jovens de comunidades periféricas do ecossistema de tecnologia, e apontou a expansão do modelo para territórios como Caruaru, Petrolina, Goiás, São Paulo e Aveiro, em Portugal.
André Luiz Carneiro de Araújo, presidente do NEPEN, apresentou uma rota distinta para a consolidação. Em vez de nascer como parque tecnológico, a instituição se estruturou como uma ICT privada ligada ao setor elétrico e, a partir daí, passou a construir um hub de inovação. Com atuação em Fortaleza e São Paulo e chegada a Manaus, o NEPEN trabalha com hardware e Internet das Coisas aplicados a cidades inteligentes e a serviços de água, gás e energia.
O diferencial do modelo, segundo Araújo, está na capacidade de levar tecnologias desenvolvidas em ambiente de pesquisa a estágios mais próximos da produção industrial. Ele explicou que a instituição atua na transição de soluções de TRL 5 ou 6 para TRL 8, em parceria com a indústria, combinando desenvolvimento tecnológico, transferência de tecnologia e manufatura sob contrato. “Transformamos R$ 11 milhões em R$ 182 milhões em três anos”, afirmou. Para o presidente do NEPEN, a mudança regulatória de 2024 no P&D do setor elétrico, ao exigir retorno financeiro dos projetos, criou condições para ampliar esse tipo de atuação.
O painel foi concluído com a participação de Sylvio Goulart Rosa, da Fundação Parque de Alta Tecnologia de São Carlos (ParqTec), que recuperou a trajetória das políticas e instituições que ajudaram a estruturar o sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação. Em sua fala, ele situou os ambientes de inovação como resultado de décadas de construção institucional, passando por iniciativas ligadas à Finep, à Embrapa, ao Ministério da Ciência e Tecnologia, ao Sebrae e à própria Anprotec, fundada em 1987.
Rosa defendeu que a inovação tecnológica é um caminho para gerar riqueza e ampliar oportunidades, com impacto na educação, no empreendedorismo e no desenvolvimento. Também destacou o papel das incubadoras na formação de empreendedores comprometidos com o país e reforçou a importância da articulação entre instituições. Para ele, a consolidação dos ecossistemas depende de cooperação contínua e de alianças capazes de sustentar estratégias de longo prazo.
Ao encerrar o painel, Artur Gibbon ressaltou a importância do trabalho conjunto entre gestores e operadores do sistema brasileiro de inovação. A mensagem comum das experiências apresentadas foi que ecossistemas se consolidam quando combinam vocação territorial, governança, confiança, formação de pessoas, transferência de conhecimento e capacidade de transformar a inovação em desenvolvimento para as regiões.
Sobre a Conferência Anprotec
A 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação acontece de 29 de junho a 2 de julho, em Manaus (AM), com o tema “Consolidando Ecossistemas: Empreendedorismo Inovador para a Economia do Futuro”. A edição é realizada pela Anprotec em parceria com o Sebrae, com organização local da Fundação Paulo Feitoza (FPFTech) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).