Especialistas discutiram fomento público-privado, capital empreendedor, instrumentos financeiros e o papel dos ambientes de inovação na orientação de startups e empresas de base tecnológica.
Manaus (AM), 30 de junho de 2026 – O Painel Temático 1 da Conferência Anprotec 2026, “Financiamento, investimentos e novos modelos de apoio à inovação”, reuniu especialistas em fomento, capital empreendedor, instrumentos financeiros e desenvolvimento regional para discutir caminhos de apoio a empresas inovadoras. A atividade abordou fundos, capital de risco, mecanismos público-privados e alternativas para ampliar o acesso de startups e empresas de base tecnológica a recursos adequados a diferentes estágios de maturidade.
O painel foi conduzido por Maurício Guedes Pereira, subsecretário na Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico do Rio de Janeiro, e contou com a participação de Clovis Benoni Meurer, diretor-superintendente da CRP; Fredson Encarnação, da Aceleradora Fabriq; Guilherme (Guila) Coutinho Calheiros, diretor de Planejamento e Gestão da EMBRAPII; e Paulo César Rezende de Carvalho Alvim, gerente de Inovação em Saúde do SESI.
Na abertura, Maurício Guedes recuperou parte da trajetória de criação da Anprotec e lembrou que, antes mesmo de termos hoje consolidados, como startup, já havia no país uma mobilização em torno de parques tecnológicos, incubadoras e empresas nascentes de base tecnológica. Ao relatar a pesquisa apoiada pela Finep e pela Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1986, e o seminário realizado no ano seguinte na sede do BNDES, que reuniu cerca de 400 pessoas, o moderador situou o painel dentro de uma agenda histórica de aproximação entre ciência, tecnologia, empresas e desenvolvimento econômico.
“É importante mostrar para a sociedade que essa atividade pode gerar emprego, renda, vacina, salvar vidas, transformar a vida das pessoas e fazer um país melhor”, afirmou Maurício, ao defender que o financiamento à ciência, à tecnologia e à inovação também seja compreendido por seus efeitos concretos sobre a vida das pessoas e sobre a competitividade do país.
Guila Calheiros apresentou o modelo da EMBRAPII como uma alternativa ágil para apoiar projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em parceria com empresas. Segundo ele, a instituição já apoiou mais de 4 mil projetos e quase 3 mil empresas, com atuação em todas as regiões do país. O diretor destacou ainda que, de cada três empresas atendidas, duas são de menor porte, resultado ampliado pela parceria com o Sebrae.
Pelo modelo apresentado, a EMBRAPII atua especialmente na chamada etapa do “vale da morte”, apoiando projetos entre TRL 3 e TRL 7, quando a tecnologia ainda precisa avançar para se aproximar do mercado. A instituição opera por meio de unidades credenciadas, hoje presentes em diferentes áreas de conhecimento, e pode apoiar projetos de portes variados, de iniciativas menores a projetos de maior escala.
Para Guila, além de conhecer os instrumentos existentes, os gestores de ambientes de inovação precisam assumir uma postura ativa na articulação de recursos. “Precisamos ter uma posição mais proativa como gestores dos ambientes de inovação. Muitas vezes esperamos sair um edital, quando precisamos estar circulando, conhecer os canais de financiamento e articular para que as ações sejam desenvolvidas”, ressaltou.
Fredson Encarnação levou ao debate a experiência da Zona Franca de Manaus e da atuação da Fabriq em um contexto regional marcado por legislação própria, incentivos à inovação e desafios específicos de escala, mercado e acesso a capital. Ele explicou que a Lei de Informática da região, especialmente após mudanças recentes, passou a incentivar iniciativas em bioeconomia, indústria 4.0 e empreendedorismo inovador, ao mesmo tempo em que exige novas formas de operação por parte dos ambientes locais.
Ao tratar da bioeconomia, Fredson destacou que a política pública local tem estimulado a busca por modelos conectados aos diferenciais da Amazônia. “No passado, nós já perdemos a nossa borracha. Neste momento, precisamos olhar o que temos de diferencial: a nossa Amazônia, os nossos bioativos, a nossa biotecnologia”, afirmou.
Entre os exemplos apresentados, ele citou a decisão da Fabriq de sair da zona de conforto das startups digitais e desenvolver projetos ligados à bioeconomia, como uma plataforma voltada a sistemas agroflorestais. A iniciativa, segundo Fredson, dialoga com a meta de descentralização de recursos para além da Região Metropolitana de Manaus e considera o produtor rural como parte do processo de validação tecnológica.
Paulo Cesar Rezende de Carvalho Alvim resgatou a trajetória de instrumentos de fomento à inovação no Brasil, passando pela atuação da Finep, pela criação do Ministério da Ciência e Tecnologia, pela Lei de Informática, pelo estímulo ao capital de risco, pelo Marco Legal, pela Lei do Bem e por mecanismos de apoio a empresas inovadoras. Para ele, a diversidade de instrumentos disponíveis precisa ser acompanhada de foco estratégico, convergência de ações e priorização.
“A primeira coisa é foco. A gente tem que fazer escolhas e priorizar”, afirmou Alvim. Ele também defendeu que políticas nacionais sejam conectadas aos territórios, lembrando que empresas têm endereço e que o desenvolvimento de negócios inovadores não acontece apenas a partir de Brasília. Em sua avaliação, instrumentos como subvenção econômica, financiamento, incentivos de P&D, compras públicas e capital de risco precisam compor uma “cesta de moedas”, adequada ao perfil e ao estágio de cada empreendimento.
Clovis Benoni Meurer abordou o papel do capital empreendedor e do private equity na expansão de empresas inovadoras. Com experiência no setor, defendeu que há recursos disponíveis em diferentes fontes, como fundos, agências estaduais e regionais, bancos de desenvolvimento, organismos multilaterais e investidores privados, mas que o acesso depende de bons projetos, empreendedores preparados, equipes consistentes e mercados com possibilidade de escala.
Para Clovis, empresas inovadoras precisam nascer olhando também para oportunidades além do mercado local. “Tem que ter um mercado escalável, um negócio que possa crescer muito e conquistar outros mercados”, ressaltou, ao defender que startups brasileiras desenvolvam produtos, serviços e estratégias com capacidade de internacionalização.
Na etapa de perguntas, o debate retomou temas como visibilidade dos instrumentos de financiamento, assimetrias regionais, apoio a setores estratégicos, inovação em saúde, bioeconomia, agritech, foodtech, biotech e práticas seguras de captação de recursos. As respostas reforçaram o papel dos ambientes de inovação como orientadores dos empreendedores, capazes de traduzir instrumentos, identificar fontes adequadas e conectar empresas às oportunidades compatíveis com cada etapa de desenvolvimento.
Ao final, o painel apontou que ampliar o financiamento à inovação não depende apenas da existência de recursos. A consolidação de novos modelos de apoio passa por foco, articulação territorial, combinação de instrumentos públicos e privados, capacidade de execução e maior proximidade entre ambientes de inovação, empresas, investidores e políticas públicas.
Sobre a Conferência Anprotec 2026
A 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação acontece de 29 de junho a 2 de julho de 2026, em Manaus (AM), no Centro de Convenções do Amazonas Vasco Vasques, com o tema “Consolidando Ecossistemas: Empreendedorismo Inovador para a Economia do Futuro”. A edição é realizada pela Anprotec em parceria com o Sebrae, com organização local da Fundação Paulo Feitoza (FPFtech) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Programação e inscrições em anprotec.org.br/conferencia2026.