Lideranças femininas debatem os rumos da inovação no Brasil durante a Conferência Anprotec

Mediado por Adriana Ferreira de Faria, o painel reuniu representantes da UEA, da P&D Brasil, do Fortec e da UFAM para discutir empreendedorismo, universidade, setor produtivo, políticas públicas e o papel estratégico da Amazônia.

Manaus (AM), 1º de julho de 2026 – O painel “Lideranças Estratégicas e os Rumos da Inovação no Brasil”, realizado nesta quarta-feira (1º) durante a 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação, reuniu lideranças de instituições centrais do ecossistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação. Mediado por Adriana Ferreira de Faria, presidente da Anprotec, o encontro tratou de caminhos para fortalecer a articulação entre universidades, empresas, ambientes de inovação, políticas públicas e desenvolvimento regional.

Participaram da mesa Michella Lasmar, professora associada da Universidade do Estado do Amazonas (UEA); Rosilda Prates, presidente da P&D Brasil; Ana Torkomian, presidente do Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (Fortec); e Tanara Lauschner, reitora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Na abertura, Adriana destacou que a proposta do painel era reunir mulheres que ocupam posições estratégicas no ecossistema, não apenas pela representatividade, mas também por suas trajetórias, competências e visões sobre o futuro da inovação.

Ao apresentar sua própria trajetória, Adriana aproximou empreendedorismo, liderança e inovação. Professora da Universidade Federal de Viçosa (UFV), ela lembrou que chegou ao tema por meio da coordenação de uma incubadora de empresas, da atuação em parques tecnológicos e de redes de inovação. Para a presidente da Anprotec, o empreendedorismo não deve ser confundido apenas com a criação de empresas. “Empreendedorismo é comportamento; empreendedorismo é atitude”, afirmou. “É muito difícil falar de inovação sem falar de empreendedorismo.”

Michella Lasmar levou ao debate a perspectiva da universidade e da formação de uma cultura de inovação. A professora da UEA defendeu que a transformação das pesquisas em soluções exige intencionalidade, formação e mudança de mentalidade, desde a sala de aula até os programas institucionais. Ela apresentou a experiência da Universidade do Estado do Amazonas na estruturação de sua base de inovação e destacou que a relação com empresas e com políticas públicas deve ser tratada como parte do processo de formação de talentos.

Para Michella, a cultura é condição inicial para que a universidade avance nessa direção. Ao citar experiências internacionais, ela observou que modelos mais maduros integram educação, pesquisa, investimento, propriedade intelectual e geração de riqueza. Em um dos exemplos mencionados, afirmou que 40% das despesas de universidades e institutos de pesquisa são bancadas pelo governo e 60% vêm de royalties gerados por pesquisas e projetos. “A cultura é o pontapé inicial”, resumiu.

Rosilda Prates trouxe a perspectiva do setor produtivo e defendeu uma aproximação mais ativa entre universidades, pesquisadores e empresas. Presidente da P&D Brasil, ela afirmou que o país dispõe de instrumentos de incentivo à inovação, mas que pesquisadores, estudantes e ambientes de inovação precisam se apresentar às empresas com propostas concretas, alinhadas aos desafios tecnológicos de cada setor.

“O empreendedorismo e o empresariado começam na universidade, mas também com atitude”, afirmou Rosilda. Para ela, a aproximação com o setor produtivo exige preparo, indicadores e relacionamento. Em sua avaliação, professores, estudantes e empreendedores podem e devem procurar empresas, conhecer seus portfólios, entender seus desafios e apresentar soluções em áreas como conectividade, transformação digital, eletromobilidade, saúde, agronegócio, defesa e sustentabilidade. “Dados e relacionamentos movem o mundo”, destacou.

Ana Torkomian aprofundou o papel das universidades empreendedoras e dos Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs). Presidente do Fortec, ela ressaltou que o conceito de universidade empreendedora não se limita à criação de empresas. Trata-se, segundo ela, de uma instituição capaz de interagir com a sociedade, proteger o conhecimento produzido internamente e criar caminhos para que esse conhecimento chegue ao mercado, seja por meio de spin-offs acadêmicas, licenciamento, desenvolvimento conjunto com empresas ou transferência de tecnologia.

“Universidade empreendedora é aquela que não está fechada na famosa torre de marfim e interage com a sociedade na qual está inserida”, afirmou Ana. Ela destacou que os NITs e as agências de inovação ocupam justamente essa posição de interface entre a academia e o mercado, ao lidar com propriedade intelectual, parcerias e transferência de conhecimento. Também defendeu políticas públicas adequadas, com continuidade, investimento e capacitação, para fortalecer essas estruturas. “Em última instância, o que a gente quer é um país melhor para se viver”, completou.

A partir da realidade amazônica, Tanara Lauschner chamou a atenção para as assimetrias regionais e para a necessidade de inserir a Amazônia de forma estruturante nas políticas de ciência, tecnologia, empreendedorismo e inovação. A reitora da UFAM afirmou que a região Norte costuma receber uma parcela reduzida dos recursos nacionais de fomento, apesar de ocupar praticamente metade do território brasileiro e enfrentar custos e desafios específicos.

Para Tanara, a Amazônia precisa ser compreendida como uma grande oportunidade de pesquisa e inovação. “A Amazônia é um bem estratégico nacional”, afirmou. “Os desafios que nós temos aqui são desafios do mundo.” Ela citou mudanças climáticas, recursos hídricos, qualidade do ar, logística e conectividade como temas que atravessam a realidade regional e a agenda global. Nesse contexto, defendeu que a biodiversidade, a sociobiodiversidade, os conhecimentos tradicionais e as pessoas que vivem na região estejam no centro da construção de soluções.

Na condução do debate, Adriana conectou as falas das painelistas à necessidade de tratar as diferenças regionais com políticas adequadas. “Não podemos tratar os diferentes de forma igual”, afirmou. A presidente da Anprotec também apresentou dados sobre os ambientes de inovação no país. Segundo ela, a associação reúne mais de 400 associados e 76 parques tecnológicos em operação. Esses parques abrigam cerca de 3.800 empresas, com quase R$ 60 bilhões em faturamento e mais de 80 mil empregos gerados. Entre esses postos de trabalho, afirmou que aproximadamente 30% são ocupados por doutores, 30% por mestres e 30% por graduados.

Para Adriana, esses números mostram que os ambientes de inovação já cumprem um papel relevante na geração de empresas e de empregos qualificados, bem como no desenvolvimento econômico, mas também indicam a necessidade de avançar em orçamento, critérios de avaliação, carreiras, governança e reconhecimento institucional. Ela defendeu que universidades e instituições de ciência e tecnologia incorporem a inovação de forma mais clara às suas estruturas, e que pesquisadores sejam preparados para atuar também na conexão entre conhecimento, mercado e sociedade.

O diálogo com a plateia reforçou pontos como a estruturação dos NITs, a articulação entre diferentes ministérios, a criação de políticas de empreendedorismo nas universidades e a diferença entre o tempo da academia e o das empresas. Ao final, as participantes convergiram para defender uma agenda capaz de unir liderança, cultura empreendedora, diversidade, políticas públicas e articulação institucional. Mais do que uma discussão sobre trajetórias individuais, o painel apontou que os rumos da inovação no Brasil dependem da capacidade de colocar universidades, empresas, governos e ambientes de inovação em diálogo permanente.

Sobre a Conferência Anprotec

A 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação acontece de 29 de junho a 2 de julho, em Manaus (AM), com o tema “Consolidando Ecossistemas: Empreendedorismo Inovador para a Economia do Futuro”. A edição é realizada pela Anprotec em parceria com o Sebrae, com organização local da Fundação Paulo Feitoza (FPFTech) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).