Cerne como estratégia: quando certificação deixa de ser selo para virar modelo de gestão e articulação de ecossistemas

No Painel Temático 4 da 36ª Conferência Anprotec, em Manaus, dirigentes do Celta, da Incamp e do TecnoPARQ/UFV mostraram como a certificação qualifica processos, amplia credibilidade institucional e abre acesso a recursos, parcerias e políticas públicas — do empreendimento incubado à rede global.

Manaus (AM), 01 de julho de 2026 — Às 8h30, na Sala E do Centro de Convenções Vasco Vasques, o Painel Temático 4 da 36ª Conferência Anprotec partiu de uma premissa direta: aplicado com estratégia, o Cerne, modelo de certificação de ambientes de inovação da Anprotec, é muito mais do que um selo. Funciona como um modelo de gestão orientado a resultados, capaz de qualificar processos, ampliar a credibilidade institucional e ampliar o acesso a recursos financeiros, parcerias e políticas públicas. Sob a mediação de Luís Gustavo Peles, gestor de Projetos e Operações da Anprotec, três dirigentes de ambientes de inovação foram convidados a demonstrar essa tese na prática, do empreendimento incubado à rede global.

“A proposta deste painel é mostrar o Cerne não apenas como um requisito, mas como algo que pode ser um benefício estratégico, orientado ao desenvolvimento”, resumiu Peles ao abrir a sessão. Para conduzir a conversa, ele propôs uma estrutura fluida, com três perguntas, cada uma dedicada a um dos níveis de maturidade do modelo, com dez minutos para cada painelista desenvolver a resposta a partir da própria vivência. A escolha não foi casual: desenvolvido pela Anprotec em parceria com o Sebrae, o Cerne (Centro de Referência para Apoio a Novos Empreendimentos) organiza-se em quatro níveis crescentes e cumulativos de maturidade, que vão do foco no empreendimento incubado (Cerne 1) à gestão estratégica do próprio mecanismo (Cerne 2), à articulação em rede e ao impacto no ecossistema (Cerne 3) e, no topo, à internacionalização e à inovação nos próprios processos (Cerne 4).

Do topo da escada: a incubadora 4.0 e o graduado como “ouro”

Coube a Tony Chierighini, vice-presidente da Anprotec e diretor executivo da Incubadora Celta, da Fundação Certi, puxar a conversa pelo grau mais avançado de maturidade. A escolha tem lastro: Chierighini é um dos formuladores históricos do modelo. Ele situou a origem do Cerne em 2006, a partir de uma provocação de Paulo Alvim, ex-ministro de CT&I e então dirigente do Sebrae, sobre a necessidade de estruturar a gestão das incubadoras e produzir números confiáveis. O desenho nasceu de encontros nacionais realizados em Florianópolis, Porto Alegre, Recife e Belém, com dezenas de incubadoras associadas.

“O Cerne não vem dizer como você faz; ele vem dizer o que você precisa fazer”, sintetizou. Foi ali, lembrou, que se encontrou a raiz do Cerne 1. À época, muitas incubadoras operavam sem registros básicos: não sabiam sequer onde estavam seus graduados, nem tinham histórico de números. “O Cerne simplesmente diz: você tem que ter o registro dos seus graduados. Ponto final. A maneira como isso é feito é uma escolha do ambiente.”

A trajetória do próprio Celta serviu de ilustração viva. Uma das primeiras incubadoras de empresas de base tecnológica do Brasil, criada em 1986, completa 40 anos em 2026 e ajudou a converter Florianópolis, de “ilha turística” a polo de tecnologia e inovação, abrigando, ao longo do caminho, empresas hoje consolidadas. Para Chierighini, esse acúmulo é a prova de uma tese: as incubadoras são instrumentos de crescimento regional, e o egresso não é um ponto de chegada, mas de partida. “O nosso graduado é o nosso ouro”, afirmou, defendendo que os graduados se tornam os melhores mentores das empresas que entram depois.

O vice-presidente conectou esse ponto a uma agenda de proatividade que, para ele, define a “incubadora 4.0”: o gestor não pode esperar a oportunidade, tem de ser a oportunidade. Citou a atuação internacional, com missões, conexões com parques no exterior e até incubação cruzada de empresas em parceria com estruturas de outros países, além de um caso de inovação aberta em chão de fábrica, em que a aproximação de empresas incubadas a uma grande montadora resultou em ganhos mensuráveis de produtividade na linha. Também recuperou programas que ajudaram a alimentar o funil de entrada, do Sinapse, em Santa Catarina, ao Centelha, sua versão nacional. O fio comum, resumiu, é a agilidade: “A gente tem que ser mais ágil do que os próprios empresários.”

Onde o modelo começa: o Cerne 1 e os cinco eixos como diagnóstico

Se Chierighini apresentou o horizonte, coube a Mariana Zanatta Inglez, gerente da Incamp e ligada à Agência de Inovação Inova Unicamp, trazer o modelo ao ponto em que ele começa: o Cerne 1 e seus cinco eixos. A pergunta foi direta: o acompanhamento rigoroso dos eixos muda a qualidade real do apoio às empresas, ou vira apenas burocracia interna?

A resposta começou pela honestidade. Aplicar o Cerne, reconheceu, “não é nem muito fácil nem muito gostoso”, sobretudo em uma incubadora que já roda há tempo e precisa reorganizar todo um acervo dentro da metodologia. Mas o retorno aparece no dia a dia. Pelos cinco eixos do modelo (empreendedor, tecnologia, capital, mercado e gestão), disse, é possível identificar quais competências cada incubado domina e onde falta atuar, permitindo combinar o atendimento coletivo com o individualizado. “Tem dia que a gente é meio divã”, brincou, ao descrever a escuta que acompanha o trabalho técnico.

O valor concreto ficou evidente em um episódio: quando a Fapesp abriu edital para credenciar incubadoras aptas a receber projetos PIPE, ter o Cerne “implantado” foi um diferencial decisivo para reunir rapidamente o volume de informações exigido. Mariana também destacou a gestão do conhecimento como blindagem contra a dependência de pessoas: 15 profissionais da Inova, de comunicação a contratos e infraestrutura, já fizeram o curso do Cerne, de modo que a produção de evidências não recai sobre um único gestor. Como a Incamp não tem vertical setorial (sua âncora é a Unicamp, com pesquisa em praticamente todas as áreas), o monitoramento pelos eixos permite calibrar a oferta e reforçar mercado quando falta mercado ou capital quando falta capital, conforme o perfil de cada turma incubada.

Além dos muros: o Cerne 3 e o ativo que deixou de ser a infraestrutura

Do diagnóstico do empreendimento, o painel subiu mais um degrau. Jucélia Maia, coordenadora do TecnoPARQ, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), assumiu o Cerne 3 com uma provocação que dialoga diretamente com o tema da Conferência: a infraestrutura física já não é o principal ativo dos mecanismos de inovação. “O ativo é a conexão”, afirmou, apontando a capacidade de articular universidade, empresas, governo e instituições de apoio.

Posicionando o parque como uma organização intermediária dentro da lógica da hélice tríplice, ela descreveu o Cerne 3 como o nível do transbordamento: relacionamento institucional, articulação em rede, desenvolvimento colaborativo e responsabilidade socioambiental. Na prática, isso se traduz no escritório de ligação Innovation Link, que capta demandas do mercado e as leva à universidade, seja para inovação aberta com grandes corporações, seja para soluções já prontas das startups, e na presença ativa em redes regionais e estaduais, de arranjos locais e da Zona da Mata à Rede Mineira de Inovação, além de conselhos municipais e de parques e de redes internacionais. “O mecanismo de inovação não age sozinho: ele precisa de parceiros para entregar valor e ampliar o impacto”, resumiu, observando que a revisão de 2025 do modelo reforçou justamente esse papel de articulador do ecossistema.

O informe: o Cerne 2025 já mobiliza a rede

O gancho da revisão rendeu, na sequência, um informe operacional. O novo Cerne 2025 já mobiliza a rede. A nova geração do modelo substitui a referência exclusiva a “incubadoras” pelo conceito mais amplo de “mecanismo de inovação”, passou a vigorar em fevereiro de 2026 e incorpora temas como ESG, governança, diversidade e internacionalização nos níveis mais avançados. Segundo Peles, o primeiro semestre de 2026 registrou 140 inscrições e 94 pessoas qualificadas no novo referencial. Um regulamento com a oferta de qualificação para o segundo semestre deve ser publicado ainda em julho, informação que circulará pelos canais oficiais da Anprotec.

Aberto o microfone para perguntas, um gestor de ambiente de inovação vinculado a uma universidade federal trouxe o desafio que atravessa boa parte da rede: a rotatividade (de estagiários, pesquisadores e da própria gestão) que corrói a memória e a continuidade institucional. “Tecnologia nunca substitui o processo”, ponderou; sem o processo bem implantado, nenhuma ferramenta se sustenta.

A resposta de Chierighini reforçou o fio condutor do painel. O antídoto contra a descontinuidade, argumentou, é o alinhamento com a alta administração sustentado por evidências: números, dados e fatos que permitam levar os problemas (e não apenas os acertos) para cima e manter o diálogo institucional vivo entre uma gestão e outra.

Ao fim do primeiro bloco, o painel havia costurado uma tese única a partir de três realidades distintas: uma incubadora catarinense de quatro décadas, um parque paulista ancorado em uma universidade de pesquisa e um parque mineiro voltado à articulação regional. Mais do que um selo, o Cerne é o instrumento que permite aos ambientes de inovação deixar de ser infraestrutura passiva e assumir o papel de operadores ativos das agendas de CT&I, exatamente o horizonte que a 36ª Conferência Anprotec propõe ao discutir a consolidação dos ecossistemas brasileiros.

Sobre a Conferência Anprotec

A 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação acontece de 29 de junho a 2 de julho, em Manaus (AM), com o tema “Consolidando Ecossistemas: Empreendedorismo Inovador para a Economia do Futuro”. A edição é realizada pela Anprotec em parceria com o Sebrae, com organização local da Fundação Paulo Feitoza (FPFTech) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).