Roda de conversa mediada por Romildo Toledo reuniu experiências da Petrobras, do Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos e da Universidade Federal de Lavras sobre a preparação de empresas brasileiras para atuar globalmente.
Manaus (AM), 1º de julho de 2026 – A roda de conversa “Ambientes de Inovação como Vetores da Internacionalização de Empresas”, realizada nesta quarta-feira (1º) durante a 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação, discutiu o papel de parques tecnológicos, incubadoras e universidades na preparação de startups e empresas inovadoras para competir no mercado internacional. Mediado por Romildo Toledo, diretor de Relações Internacionais da Anprotec e diretor executivo do Parque Tecnológico da UFRJ, o debate reuniu representantes da Petrobras, do Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos (PIT) e da Universidade Federal de Lavras (UFLA).
Ao abrir a conversa, Romildo situou a internacionalização como uma agenda ligada à competitividade dos ecossistemas de inovação, mas ressaltou que o avanço depende do grau de maturidade dos ambientes. Para ele, a questão não é apenas reconhecer a importância de levar empresas ao exterior, mas também avaliar se os ecossistemas estão preparados para isso. “A pergunta parece simples, mas fazer isso não é”, disse. Ele também lembrou o peso da academia no ecossistema brasileiro, ao destacar que 70% do ecossistema de inovação nacional tem origem nas universidades. Empresas que conseguem atender grandes compradores, acrescentou, já demonstram um nível importante de preparo, pois passam a responder a exigências mais rígidas de compliance, governança e entrega.
Coordenadora de Projetos de P&D Corporativo da Petrobras, Tiara Andrade Oliveira Bicalho apresentou a companhia como um ecossistema de inovação e detalhou o programa de inovação aberta Conexões para Inovação, cujo módulo de startups é conduzido em parceria com o Sebrae. Segundo ela, as exigências técnicas e de compliance da estatal ajudam a qualificar as empresas para enfrentar desafios mais amplos. Ao passar por esse processo, a empresa demonstra capacidade de atender a padrões elevados. “Isso já a coloca em outro patamar”, afirmou. Para Tiara, esse amadurecimento também aproxima as empresas dos mercados internacionais.
Tiara também apresentou uma nova frente de atuação voltada ao investimento direto em empresas de base tecnológica. A iniciativa, estruturada em parceria com o BNDES e a Finep, prevê recursos de cerca de R$ 500 milhões para empresas voltadas à sustentabilidade, à transição energética e à descarbonização.
Na sequência, Mariana Gomes, gerente de Estratégia e Inovação do Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos, tratou a inserção internacional como uma escolha estratégica de longo prazo, construída ao longo da trajetória do PIT. O parque mantém há 20 anos uma parceria com a ApexBrasil para promover as exportações. Segundo ela, a agenda avançou porque, desde o início, as lideranças do parque entenderam a internacionalização como parte da competitividade das empresas.
Mariana descreveu iniciativas em duas frentes. O Smart Take Off prepara empresas residentes para atuar em outros mercados, enquanto o soft landing recebe empresas estrangeiras no ambiente do parque. Ela também defendeu que os resultados fossem avaliados com base em métricas mais amplas do que o volume de exportações. Para a gerente, a participação em eventos internacionais deve ser vista como etapa final de um processo de amadurecimento, não como ponto de partida. Antes de investir em uma missão ou feira, a empresa precisa incorporar a internacionalização à própria estratégia. “O evento internacional vem por último”, resumiu.
Segundo Mariana, essa agenda só se sustenta com articulação entre instituições. Ela afirmou que a atuação em rede permite transformar contatos em parcerias concretas, com presença contínua nos espaços onde estão os parceiros estratégicos. “É mais do que ter um plano de trabalho. É olhar no olho e querer construir junto”, completou.
A partir da perspectiva acadêmica, Paulo Henrique Leme, diretor de Inovação e Tecnologia da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação da UFLA, levou o debate sobre a formação de empresas a partir das universidades e apresentou o programa Inovação UFLA. Segundo ele, a universidade destinou R$ 18 milhões de seu orçamento próprio para financiar projetos de jovens pesquisadores. O programa aprovou 141 projetos entre 162 propostas e exige que cada grupo entregue resultados de inovação além dos artigos científicos, com mentoria desde as primeiras etapas.
Para Leme, o principal desafio é cultural. Ele provocou os participantes a refletir sobre se as universidades são inovadoras em sua essência ou se essa agenda ainda permanece concentrada em núcleos e ambientes específicos. Também defendeu que a formação empreendedora chegue aos pesquisadores de maneira mais direta, inclusive com orientações básicas sobre startups, empresas, limites do servidor público e participação societária de professores. “Tenho que explicar o básico”, relatou.
O diretor também distinguiu os papéis de pesquisadores e de empreendedores nesse processo. Segundo ele, o professor contribui para a formação, a pesquisa e o desenvolvimento do conhecimento, enquanto a chegada da solução ao mercado depende da atuação de empreendedores e de empresas. Para Leme, a consolidação dessa cultura depende de políticas de longo prazo, como ocorre em países que estruturaram estratégias contínuas de inovação.
No diálogo com a plateia, os participantes discutiram a importância de instrumentos públicos mais alinhados à realidade das empresas de base tecnológica. Mariana resumiu a demanda dos ambientes de inovação ao defender que programas federais e estaduais adotem indicadores mais alinhados à natureza dos negócios que apoiam.
Ao encerrar a roda, Romildo Toledo destacou a complementaridade das experiências apresentadas. Para ele, Petrobras, PIT e UFLA mostraram perspectivas diferentes sobre a inserção internacional de empresas, da formação de spin-offs acadêmicas à atuação em ambientes mais maduros, passando por políticas de inovação aberta voltadas a empresas nascentes. “Foi muito produtivo e acho que vamos avançar muito nessa direção”, afirmou.
A 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação acontece de 29 de junho a 2 de julho, em Manaus (AM), com o tema “Consolidando Ecossistemas: Empreendedorismo Inovador para a Economia do Futuro”. A edição é realizada pela Anprotec em parceria com o Sebrae, com organização local da Fundação Paulo Feitoza (FPFTech) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).