Com mediação de Francisco Saboya, a mesa reuniu Impact Hub Fortaleza e Finep para tratar de transformação digital, economia de impacto, financiamento e estratégias de desenvolvimento territorial.
Manaus (AM), 30 de junho de 2026 – A segunda plenária da 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação discutiu, nesta terça-feira (30), como os ambientes de inovação podem ampliar sua conexão com o mercado e com as políticas públicas. Com o tema “Conectando ambientes de inovação e seus dispositivos ao mercado e às políticas públicas”, a sessão reuniu Francisco Saboya, conselheiro consultivo da Anprotec, Michelle Ribeiro, cofundadora do Impact Hub Fortaleza, e Cristiane Abreu, gerente do Departamento de Ambientes, Inovação e Empreendedorismo da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
A mesa partiu da relação entre transformação digital, desenvolvimento territorial e instrumentos de fomento. Ao abrir o debate, Saboya situou os ambientes de inovação na transição de uma sociedade industrial para uma sociedade marcada pela digitalização, pela conexão, pela mobilidade e pela atuação em rede. Segundo ele, essas dimensões já convivem em uma mesma realidade e exigem nova capacidade de leitura dos públicos, dos mercados e das estratégias institucionais.
“Transformação digital e digitalização são coisas muito distintas. Você digitaliza processos que endereçam estratégias”, afirmou Saboya. Para ele, a transformação digital envolve pessoas, qualificação e cultura, além da adoção de tecnologias. O conselheiro destacou que incubadoras, parques tecnológicos, hubs e demais ambientes precisam acompanhar a evolução dos mercados digitais, das novas gerações e das formas híbridas de organização do trabalho e dos negócios.
Nesse contexto, Saboya tratou os ambientes de inovação como instrumentos de desenvolvimento econômico e social de longo prazo. “Os territórios hoje conseguem suplantar as limitações históricas pela agregação de conhecimento aos processos produtivos, vulgo inovação”, ressaltou. Entre os pontos críticos para criar e sustentar ecossistemas, ele destacou o financiamento robusto e perene, com a Finep e o Sebrae como parceiros estratégicos, e a estratégia, entendida como a capacidade de transformar desejos e objetivos em ações concretas.
Na sequência, Michelle Ribeiro apresentou a tese do “impacto como maturidade da inovação”. Para a co-fundadora do Impact Hub Fortaleza, inovação e impacto não devem ser tratados como agendas laterais ou paralelas, mas como dimensões integradas de uma mesma estratégia. A provocação central, afirmou, é recolocar o território no centro da inovação e responder para quê, para quem e com qual benefício se inova.
Segundo Michelle, o impacto precisa deixar de ser tratado como uma agenda paralela e passar a compor a própria estratégia de inovação. “O impacto está no centro da inovação”, afirmou. Ela ressaltou que negócios de impacto não configuram um nicho ou um novo setor, mas um modelo de negócio com intenção clara de contribuir para a solução de problemas sociais ou ambientais, mantendo sustentabilidade econômica e operando em lógica de mercado.
Ao tratar da maturidade da agenda no país, Michelle citou a Estratégia Nacional de Economia de Impacto, vinculada ao MDIC, e o cadastro nacional voltado a empreendimentos de impacto como instrumentos relevantes para mapear e identificar negócios desse campo. Também apresentou a experiência do Ceará, que conta com agenda estruturada, lei estadual e comitê com participação de 17 organizações, além de iniciativas de regionalização e de articulação com municípios.
Para Michelle, a conexão com mercado e capital é decisiva para que os negócios de impacto avancem em maturidade. O maior desafio, afirmou, está em “acessar mercado e acessar capital”, já que há muito apoio à ideação e à modelagem, mas a necessidade cresce à medida que os negócios amadurecem.
A apresentação de Cristiane Abreu concentrou-se nos instrumentos da Finep voltados a empresas, startups, instituições científicas e tecnológicas e ambientes de inovação. A gerente explicou que a instituição, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), atua como secretaria-executiva do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e opera modalidades como crédito, subvenção econômica, investimentos em fundos e recursos não reembolsáveis para instituições científicas e tecnológicas.
Cristiane destacou que o descontingenciamento do FNDCT, a partir de 2022, ampliou a capacidade de apoio da Finep. Segundo os dados apresentados, entre os períodos de 2019 a 2022 e de 2023 a 2025 o crédito da Finep passou de R$ 9,2 bilhões para R$ 31,5 bilhões, alta de 3,4 vezes, e a subvenção econômica subiu de R$ 0,6 bilhão para R$ 4 bilhões. “Esse descontingenciamento do FNDCT foi fundamental para a política pública de apoio à ciência, tecnologia e inovação no país, e espero que continue assim nos próximos anos”, afirmou.
Entre os instrumentos apresentados, Cristiane citou o Centelha 3, lançado em todos os estados, com total de R$ 124 milhões do FNDCT. Mencionou também o Tecnova 4, voltado a empresas com faturamento de até R$ 16 milhões, e o recém-lançado Pró-Amazônia Empreende, direcionado ao apoio a startups da Amazônia Legal por meio de agências de fomento selecionadas. Segundo ela, a maioria dos instrumentos da Finep tem dedicado pelo menos 30% dos recursos às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, movimento que reforça a dimensão territorial da política de inovação.
A gerente também apresentou ações voltadas a parques tecnológicos e incubadoras. De acordo com Cristiane, a Finep tem apoiado parques tecnológicos em praticamente todos os estados do país e dialoga com a Anprotec sobre uma nova chamada para parques tecnológicos, com incubadoras como parceiras, prevista para o primeiro semestre de 2027. A proposta em discussão busca fortalecer a integração entre os ambientes e ampliar os resultados gerados por parques, incubadoras e startups.
Ao final, Michelle Ribeiro afirmou que os ambientes de inovação podem atuar como plataformas de articulação entre comunidade, setor produtivo, universidades e poder público. Para ela, as soluções desenvolvidas nesses ambientes precisam responder a problemas sociais e ambientais, conectar-se ao mercado e ao capital e dialogar com políticas públicas. Ela também sugeriu que a integração entre ciência, tecnologia, inovação e impacto seja tratada nas próximas edições da Conferência Anprotec “não mais com uma agenda paralela, mas com uma agenda única, integrada, unificada, sistêmica”.
Sobre a Conferência Anprotec
A Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação é o maior encontro de ambientes de inovação da América Latina e um dos maiores do mundo. Realizada anualmente pela Anprotec e pelo Sebrae, com mais de 30 edições, reúne incubadoras, parques tecnológicos, aceleradoras, hubs, universidades, empresas, investidores e gestores públicos de todo o país. A 36ª edição acontece de 29 de junho a 2 de julho de 2026, em Manaus (AM), no Centro de Convenções do Amazonas Vasco Vasques, sob o tema “Consolidando Ecossistemas: Empreendedorismo Inovador para a Economia do Futuro”, com organização local da Fundação Paulo Feitoza (FPFtech) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Programação e inscrições em anprotec.org.br/conferencia2026.