Da sala de aula ao mapa do país: como a formação de talentos virou estratégia de soberania na Conferência Anprotec

Painel temático “Talentos, educação empreendedora e formação para inovação” reuniu universidade estadual, instituto federal, Ministério da Educação e instituições de pesquisa em torno de uma mesma tese: o ambiente de inovação que dá certo começa na formação de quem o opera.

Manaus — Quando Guilherme Ary Plonski se formou engenheiro, a única dúvida do recém-graduado era “Petrobras ou IBM”. Quem ousasse abrir o próprio negócio, lembrou ele, “seria, no mínimo, não encorajado”. Décadas depois, foi esse mesmo contraste que o mediador da Anprotec usou para abrir, na Sala E da 36ª Conferência, um painel sobre o que mudou — e o que ainda precisa mudar — para que a educação deixe de apenas formar técnicos e passe a formar quem inventa o futuro.

Plonski usou o próprio retrato de época para instalar a pergunta que organizaria a mesa, dentro do eixo de capital humano da 36ª Conferência: se todo ecossistema de inovação passa, necessariamente, pela formação de talentos, qual é hoje o papel estratégico das instituições de ensino para que a educação vá além da formação técnica e se torne, ela própria, um vetor ativo de inovação? Foi com essa provocação que ele introduziu os “quatro olhares diferentes voltados para a mesma causa”, a de transformar talento em desenvolvimento.

A universidade que vai até o aluno

Coube a Alcian Souza, diretor-executivo da Agência de Inovação da UEA (Agin/UEA) e representante do reitor André Zogahib, situar a resposta na escala amazônica. A Universidade do Estado do Amazonas está presente nos 61 municípios do interior — uma realidade que ele descreveu como “um Brasil dentro do Brasil”. Para dimensionar o desafio, recorreu à geografia: de Manaus a Tabatinga, na fronteira com Colômbia e Peru, são mais de 1.100 quilômetros, e uma passagem aérea entre as duas cidades chega a custar mais do que um voo para São Paulo.

“Não é o aluno que se dirige à universidade; é a universidade que se faz presente em cada um desses municípios”, sintetizou, apresentando a capilaridade como política de afirmação inclusiva. Mas a presença física, advertiu, não basta. A UEA se apresenta como a maior universidade multicampi do país — e Souza devolveu a provocação à própria instituição: “Será que temos também multifinanciamento? Ou estamos criando apenas mais um espaço físico que depois não se sustenta?”.

Foi nesse ponto que Souza costurou a moldura conceitual do painel, recorrendo a um registro histórico sobre o papel da universidade em três grandes gerações: a primeira, voltada à transmissão de conhecimento; a segunda, que somou ensino e pesquisa no pós-guerra; e a terceira, empreendedora, que direciona ensino, pesquisa e extensão para a transformação socioeconômica. É nessa transição, disse, que a UEA busca se lançar. O caminho amazônico para esse terceiro estágio, defendeu, passa por equacionar crescimento e preservação — tema que ilustrou com as controvérsias do asfaltamento da BR-319 e da exploração de terras raras na região. Qualquer aposta, ponderou, só se justifica se for “ambientalmente sustentável, economicamente sustentável e, sobretudo, socialmente potente”. A bioeconomia, na sua leitura, é o melhor exemplo de ativo natural que precisa virar negócio escalável sem deixar de ser sustentável.

O instituto federal que faz muito com pouco

Se a UEA trouxe a visão estratégica, coube ao Instituto Federal do Amazonas mostrar como ela se traduz no chão da execução — e Plonski emendou o gancho lembrando que os institutos federais são “um ente novo no ecossistema” brasileiro. Aline Simões Aguiar, do IFAM, assumiu o microfone definindo-se como “apenas a porta-voz de um trabalho que, junto com a inovação, transforma vidas”.

Os números desenham o tamanho do esforço: são 18 campi distribuídos em 15 municípios, operando, nas palavras dela, “com poucos recursos humanos e poucos recursos financeiros”. A incubadora Ayty — cujo nome significa “Ninho” — nasceu em 2003 e hoje sustenta unidades implantadas em campi como Manaus Centro, Manaus Distrito, Manaus Zona Oeste, Presidente Figueiredo e Parintins, com São Gabriel da Cachoeira em fase de implantação. No último ano, a incubadora conquistou a certificação CERNE 1 e, na semana anterior à Conferência, alcançou também o CERNE 2 — selo que Aline comemorou como “fruto do trabalho de pessoas que se dedicam”.

Mas foi um caso concreto que deu densidade à fala: o do chocolate Nacal, empresa incubada pela Ayty que hoje exporta e estampa as prateleiras dos aeroportos. Prova de que a incubadora entrega, apesar do cenário — porque a logística amazônica reaparece a cada passo como obstáculo. De Erunepé, a três horas e meia de Manaus, a passagem passa de seis mil reais. Ainda assim, a coordenadora fez questão de inverter a lógica do desânimo: “A gente não espera coisas grandiosas para comemorar as nossas conquistas e o Cerne e o caso da Nacal são exemplos disso”.

O dinheiro que pode irrigar o ecossistema

Da prática local, a mesa subiu para a escala da política nacional — e da verba capaz de irrigá-la. Marcela Ferreira Paes França, coordenadora-geral de Incentivo à Cooperação e à Inovação na Educação Profissional e Tecnológica (SETEC/MEC), começou pela dimensão do público: o Brasil tem hoje 3 milhões de pessoas na educação profissional e tecnológica (EPT), das quais cerca de 81% nas redes estaduais. “Não dá para falar de educação profissional e tecnológica sem falar da conexão com o mundo do trabalho”, afirmou.

A novidade, anunciou, é que esse mundo finalmente ganhou financiamento estruturado. Pelo programa Juros por Educação, dentro do Propag, os estados que renegociam dívidas com a União são obrigados a reinvestir ao menos 60% do valor dos juros na educação profissional e tecnológica — algo da ordem de 7 bilhões de reais anuais, com mais de 235 mil novas vagas planejadas. O ponto que ela fez questão de destacar para a plateia de gestores: esses recursos exigem, por lei, que as novas matrículas venham acompanhadas de inovação. “Isso nunca foi feito no país. É uma janela de oportunidade para quem é gestor de um ambiente promotor de inovação fazer parceria com os estados”, provocou.

Marcela ainda alinhavou o programa às metas do novo Plano Nacional de Educação 2026–2036 e detalhou outras frentes do MEC: o Planatec, que no atual ciclo abriu mais de 380 mil vagas e já chega a mais de dois mil municípios; o projeto de assistência técnica gratuita que, em dois anos, atendeu dezenas de instituições com centenas de formações; e a plataforma Rede Integra, desenvolvida com o IFRS para mapear e conectar incubadoras, laboratórios e fablabs de toda a rede. O recado foi pragmático: a estrutura existe, o dinheiro passou a existir — falta quem se conecte para operá-los.

O horizonte: do artigo ao impacto

Faltava o olhar de longo prazo, e ele veio com Diego Menezes, presidente da Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (ABIPTI). Partindo do reconhecimento de que o Brasil construiu, em cinco décadas, um sistema de pós-graduação robusto — responsável por cerca de 3% da produção científica mundial e por liderança global em campos como agricultura tropical e biodiversidade —, Menezes cravou o nó da questão: “Produto é consequência. O que queremos são produtos e processos que resultem em impacto social”. O desafio brasileiro, disse, é vencer o “vale da morte” entre o conhecimento científico e o desenvolvimento econômico.

Para tanto, recorreu à geopolítica do conhecimento — citando como China, Israel, Finlândia e Singapura organizam suas universidades não a partir do que desejam ensinar, “mas do que o país precisa dominar” — e defendeu uma cultura de negócios regenerativos e de cooperação inédita entre academia e setor privado. Numa frase que parafraseou de uma referência sobre diversidade, traduziu sua visão de democracia inclusiva: “Inclusão não é convidar para uma festa; é tirar a pessoa para dançar”.

O fechamento foi pessoal e programático. Menezes contou ter sido aluno de escola pública e ter descoberto a ciência aos 14 anos, num programa de vocação científica — experiência que, segundo ele, define sua trajetória até hoje. Daí a proposta que levou ao Conselho Nacional de Educação: tornar ciência, tecnologia e inovação componente curricular obrigatório, do ensino fundamental ao doutorado. “Quem não sabe o que procura não reconhece quando acha”, advertiu, antes da síntese que encerrou a rodada de aberturas e amarrou os quatro olhares: “A educação empreendedora não se limita a formar pessoas que criem negócios. Ela precisa formar pessoas que criem futuro”.

Sobre a Conferência Anprotec 2026

A 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação acontece de 29 de junho a 2 de julho, em Manaus (AM), com o tema “Consolidando Ecossistemas: Empreendedorismo Inovador para a Economia do Futuro”. A edição é realizada pela Anprotec em parceria com o Sebrae, com organização local da Fundação Paulo Feitoza (FPFTech) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).