Deep techs: ciência, mercado e os desafios da inovação

Segundo painel do “Sebrae Convida” aborda como estruturar e impulsionar deep techs

Manaus, 30 de junho de 2026 – Transformar conhecimento científico em soluções de mercado, superar desafios de infraestrutura, proteger a propriedade intelectual e atrair investimentos. Esses foram alguns dos temas discutidos no segundo painel do Sebrae Convida, realizado durante a 36ª Conferência Anprotec, com o tema “Da pesquisa à escala: o que realmente faz uma startup deep tech dar certo?”.

Com mediação de Philippe Figueiredo, analista de Inovação do Sebrae Nacional, o painel reuniu Daniel Pimentel, cofundador e diretor da Emerge; Caio Perecin, diretor de Operações do Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA); Pamella Santa Rosa, CEO da Amazonzyme Biotecnologia; e Tatiana Carestiato, pesquisadora do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Os participantes compartilharam experiências sobre os desafios de transformar pesquisa em inovação, os caminhos para estruturar negócios de base científica e os fatores que impulsionam o crescimento das deep techs.

Abrindo a discussão, Daniel Pimentel respondeu à pergunta que norteou o debate: o que diferencia uma deep tech dos demais negócios? Segundo ele, inovação não se resume à transformação tecnológica. As deep techs utilizam conhecimento científico e tecnológico para resolver desafios complexos e gerar soluções de mercado.

Daniel explicou que esses modelos de negócios surgem na intersecção entre universidade, ciência e mercado. Ter doutores na equipe, patentes ou uma forte base científica são características importantes, mas não suficientes para definir uma deep tech. Para ele, o principal diferencial está na busca por solucionar problemas científicos relevantes e criar tecnologias com alto potencial de impacto. 

Ele comentou a falta de deep techs no Brasil em comparação a outras nações, e reforçou a importância de utilizar as iniciativas de apoio existentes: “Precisamos, para além de reclamar do que está acontecendo, criar essas empresas, abraçar essa indignação e percorrer o caminho para viabilizar medicamentos brasileiros, satélites brasileiros e tecnologias brasileiras”.

Pamella Santa Rosa compartilhou sua trajetória como bióloga, mestre e doutora em biotecnologia até a criação da Amazonzyme Biotecnologia. A startup atua com soluções voltadas para setores industriais, desenvolvimento de produtos e análises em biotecnologia. Segundo ela, um dos maiores desafios foi compreender como transformar a pesquisa científica em um produto ou serviço que atendesse às necessidades do mercado.

Ela ressaltou ainda que um dos principais aprendizados foi traduzir a linguagem científica para uma linguagem compreendida por investidores e parceiros, desenvolvendo também competências em gestão e negócios. Para Pamella, a ciência nasce nas universidades, mas o pesquisador precisa aprender a enxergar seu trabalho também sob uma perspectiva empreendedora.

“O primeiro passo é realmente sair do laboratório e conversar com potenciais clientes para identificar se aquilo que estamos pesquisando resolve um problema. Porque é isso que vai fazer uma deep tech crescer: resolver uma dor real e gerar valor”, disse a CEO.

Ecossistema de inovação, infraestrutura e apoio às empresas

Caio Perecin destacou o papel das instituições de ciência, tecnologia e inovação na aproximação entre conhecimento científico e mercado. Segundo ele, essas organizações ajudam a conectar a biodiversidade ao desenvolvimento de novos negócios, encurtando caminhos e facilitando a geração de soluções inovadoras.

“As deep techs trazem um diferencial que pode crescer muito, especialmente quando associadas à nossa biodiversidade: o nosso grande diferencial competitivo aqui no Brasil”, disse ele.

O Centro de Bionegócios da Amazônia atua no desenvolvimento de negócios baseados na biodiversidade amazônica em parceria com universidades, pesquisadores e atores da cadeia produtiva, promovendo um modelo de desenvolvimento sustentável para a região. A instituição conecta grandes empresas e startups e oferece infraestrutura como laboratórios de formulações, estudos em biomateriais e outros serviços de apoio tecnológico.

Ao abordar as principais lacunas enfrentadas pelas deep techs, Caio afirmou que equipamentos de alta tecnologia e laboratórios adequados são fundamentais para que as soluções alcancem a escala exigida pelos investidores. Segundo ele, existem mecanismos de apoio na Amazônia, como recursos do Sebrae, editais da Finep, Fundo Amazônia e outras iniciativas de fomento.

Ele destacou que o acesso aos serviços do CBA foi simplificado por meio da Fundação Universitas, que disponibiliza em seu site formulários  e-mail e agenda para reuniões técnicas. Embora a atuação não seja restrita à região Norte, a prioridade da instituição é fomentar negócios que utilizem de forma sustentável a biodiversidade amazônica.

Propriedade intelectual, investimento e os desafios das deep techs

Tatiana Carestiato destacou que a propriedade intelectual é um elemento estratégico para empresas que atuam em ambientes altamente competitivos. Segundo ela, o papel do INPI é estimular a inovação por meio da proteção de patentes, softwares, desenhos industriais e circuitos integrados.

A pesquisadora explicou que o instituto tem ampliado sua atuação nacional por meio de superintendências regionais, acordos de cooperação e programas de capacitação, além de desenvolver metodologias mais acessíveis para pesquisadores e empreendedores. Os acordos internacionais também possibilitam que inovações brasileiras sejam protegidas em outros países.

Tatiana ressaltou que o Brasil produz um volume significativo de pesquisa científica, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar esse conhecimento em produtos e soluções para a sociedade. Nesse contexto, a propriedade intelectual funciona como uma ponte entre a pesquisa e a inovação.

“Temos um país muito rico e com muito potencial. Se acreditarmos na proteção da propriedade industrial como uma das formas de gerar valor para as nossas invenções, teremos um futuro muito promissor.” 

Ela alertou que muitos pesquisadores deixam a proteção da invenção para o final do processo, quando já não há mais tempo para registrar a patente. Segundo a pesquisadora, a estratégia de proteção deve ser pensada desde a fase de idealização, incluindo buscas em bases de patentes para verificar se determinada solução já existe.

Após os testes iniciais em laboratório, a recomendação é realizar o depósito da patente antes das próximas etapas de desenvolvimento. Na fase de comercialização, também é importante proteger a marca e o desenho industrial. Ela lembrou que o instituto oferece mentorias gratuitas e programas de capacitação em parceria com o Sebrae.

Equipes, capital e o futuro das deep techs

Ao discutir os fatores que impulsionam o crescimento das deep techs, Pamella afirmou que a tecnologia é o principal ativo dessas empresas, sendo necessário validar a solução, comprovar seu diferencial competitivo e demonstrar seu potencial de escala. Ao mesmo tempo, destacou que equipes multidisciplinares são indispensáveis para reunir pesquisadores, profissionais de negócios e especialistas de diferentes áreas.

No terceiro bloco do debate, Pamella também abordou o desafio da retenção de talentos. Segundo ela, as startups precisam de profissionais tecnicamente preparados, mas também capazes de lidar com mudanças constantes e com a velocidade característica do ambiente de inovação. Para a empreendedora, a palavra que melhor define esse perfil é resiliência.

Daniel Pimentel afirmou que não existe uma fórmula única para o sucesso das deep techs e destacou a importância do ecossistema de apoio formado por instituições como Sebrae e Anprotec. Segundo ele, as soluções desenvolvidas precisam demonstrar potencial de retorno significativo, apresentar vantagens competitivas de acordo com o cenário existente no mercado e justificar os riscos inerentes ao investimento em tecnologias de base científica. Ele também ressaltou a importância de equipes diversas e de ambientes favoráveis à inovação.

Encerrando o painel, Daniel destacou que o Brasil já desenvolveu importantes deep techs ao longo de sua história e afirmou que tanto o país quanto a Amazônia possuem grande potencial científico, tecnológico e empreendedor para impulsionar novos negócios de base tecnológica.

Sobre a Conferência Anprotec 2026

A 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação acontece de 29 de junho a 2 de julho, em Manaus (AM), com o tema “Consolidando Ecossistemas: Empreendedorismo Inovador para a Economia do Futuro”. A edição é realizada pela Anprotec em parceria com o Sebrae, com organização local da Fundação Paulo Feitoza (FPFTech) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).