Experiências do Panamá e da Espanha dialogaram com o Sebrae, a Finep e o MCTI sobre coordenação, financiamento, vocações territoriais e internacionalização dos ambientes de inovação.
Manaus (AM), 29 de junho de 2026 – A primeira plenária da 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação, realizada nesta segunda-feira (29), reuniu experiências internacionais, instituições de fomento e representantes de políticas públicas para debater o papel dos ecossistemas de inovação como motores da economia do futuro. A sessão, mediada por Romildo Toledo, diretor de Relações Internacionais da Anprotec, destacou a coordenação entre governo, empresas, universidades, ambientes de inovação e instituições de apoio como elemento central para transformar conhecimento, tecnologia e vocações territoriais em desenvolvimento econômico sustentável.
Com o tema “Ecossistemas de inovação como motores da economia do futuro”, a plenária contou com a participação de Janelle Castrellón, gerente de Negócios da Ciudad del Saber, no Panamá; Sonia Palomo, diretora de Transferência de Tecnologia e Relações Internacionais do Málaga TechPark, na Espanha; Bruno Quick, diretor técnico do Sebrae Nacional; Fernanda Stiebler, chefe de gabinete da Finep; e Daniel Gomes de Almeida Filho, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Na abertura, Toledo ressaltou que a competição entre países passou a depender cada vez mais da capacidade de seus ecossistemas de transformar ciência, tecnologia e conhecimento em inovação. Segundo ele, temas como inteligência artificial, transição energética, biotecnologia e economia verde mostram que a inovação ocupa uma posição estratégica na economia global. Ao situar a realização da Conferência em Manaus, na Amazônia brasileira, o mediador associou o debate aos ativos de biodiversidade, à economia verde e à biotecnologia da região.
“As políticas públicas que deram certo no Brasil são todas de longo prazo. É preciso que a inovação e o empreendedorismo também sejam tratados como política de Estado, com um planejamento que ultrapasse os ciclos eleitorais”, destacou Toledo.
Ciudad del Saber: conhecimento, colaboração e impacto social
A primeira apresentação foi de Janelle Castrellón, que apresentou a trajetória da Ciudad del Saber, parque científico e tecnológico instalado em uma antiga área de bases militares norte-americanas às margens do Canal do Panamá. Administrado por uma fundação privada sem fins lucrativos, o espaço ocupa 120 hectares, reúne mais de 20 edifícios, cerca de 7 mil empregos diretos e mais de 200 membros afiliados, dos quais 48% são mulheres.
Castrellón mostrou como o Panamá utiliza sua posição geográfica, logística, financeira, digital e acadêmica para fortalecer as conexões regionais. A Ciudad del Saber abriga o hub regional das Nações Unidas para a América Latina e articula empresas, programas acadêmicos, empreendedores e organismos internacionais em torno da colaboração. Ao longo de mais de duas décadas, a instituição acompanhou mais de 13 mil empreendedores e incubou mais de 500 startups desde 2021, das quais 24 receberam capital semente.
Para a representante panamenha, a experiência da Ciudad del Saber evidencia que ambientes de inovação ganham força quando combinam infraestrutura, confiança entre os atores e compromisso com o impacto social. “Quando você envolve a sociedade, os povos originários, as mulheres e as pessoas em situação de vulnerabilidade, passa a ter diferentes olhares para resolver problemas. E esses problemas são resolvidos de forma mais relevante para quem é, de fato, o beneficiário”, afirmou.
Málaga TechPark: escala, universidade e conexão internacional
Sonia Palomo apresentou o Málaga TechPark, Parque Tecnológico da Andaluzia, criado em 1992 como iniciativa público-privada que reúne o governo regional da Andaluzia, a prefeitura de Málaga, a Universidade de Málaga e o Banco Unicaja. Com mais de 33 anos de trajetória, o parque abriga 719 empresas e 29.018 profissionais, soma mais de 900 milhões de euros em investimento, com cerca de 80% de capital privado, e responde por mais de 35% do PIB da cidade espanhola.
O parque também possui mais de 2 milhões de metros quadrados dedicados à inovação e gera mais de 50 mil empregos indiretos, segundo dados apresentados na plenária. Sede mundial da International Association of Science Parks and Areas of Innovation (IASP), o Málaga TechPark foi destacado como exemplo de um ambiente maduro, capaz de articular empresas, universidade, talentos, infraestrutura e redes internacionais.
Palomo defendeu que redes formadas por ecossistemas em diferentes estágios de desenvolvimento podem gerar ganhos para todos os participantes, desde que compartilhem objetivos comuns e coordenação. “O dia em que uma startup brasileira pensar de maneira natural no mercado espanhol ou no mercado do Panamá, ou em que uma empresa espanhola enxergar um sócio brasileiro como parceiro estratégico, estaremos construindo essa ponte e esse corredor de inovação entre a Europa e a América Latina”, afirmou.
Vocações territoriais e pequenos negócios
Pelo lado brasileiro, Bruno Quick destacou o papel dos pequenos negócios na agenda de inovação e defendeu que os ecossistemas sejam fortalecidos com base nas vocações de cada território. Para o diretor técnico do Sebrae Nacional, a inovação deve conectar conhecimento, mercado, educação empreendedora e oportunidades regionais, especialmente em agendas como a bioeconomia, as deep techs e o desenvolvimento sustentável.
Quick ressaltou que o Sebrae atua como articulador entre os atores do ecossistema, ajudando a aproximar empreendedores, instituições de ciência e tecnologia, governos e mercados. Segundo ele, a inovação ganha legitimidade quando se converte em renda, na permanência de talentos e na melhoria concreta da qualidade de vida nos territórios.
“Tudo aquilo que dá retorno positivo ao esforço social tende a ser defendido pela sociedade. Quando o filho não precisa mudar para uma grande capital, está perto de casa, com renda e com a vida melhorando, isso é a essência de uma democracia de resultados”, afirmou.
Financiamento e continuidade para inovação
Fernanda Stiebler abordou a importância do financiamento e da previsibilidade para projetos de ciência, tecnologia e inovação. A chefe de gabinete da Finep destacou que a atual política industrial posiciona a inovação como eixo central da estratégia de desenvolvimento e ressaltou instrumentos como o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), a subvenção econômica e o crédito para inovação, que atuam como mecanismos de apoio a projetos de maior risco tecnológico.
Segundo Stiebler, a exigência de participação de uma Instituição de Ciência e Tecnologia (ICT) em projetos de subvenção econômica tem aproximado empresas, universidades e ambientes de inovação, fortalecendo parcerias e estimulando a circulação de conhecimento aplicado. A executiva também defendeu a continuidade dos recursos como condição para que empresas e instituições possam planejar investimentos de médio e longo prazo.
“As empresas precisam ter confiança para investir, e as instituições precisam ter previsibilidade para fazer planejamentos mais arrojados. A inovação precisa ser concebida como política de Estado”, ressaltou.
Coordenação entre governo, empresas e academia
Daniel Gomes de Almeida Filho apresentou a visão do MCTI sobre a economia do futuro e a necessidade de acelerar o desenvolvimento tecnológico brasileiro. Para o secretário, o país possui ativos relevantes, como produção científica, recursos humanos, instrumentos de financiamento e ambientes de inovação em diferentes regiões. A prioridade estratégica, afirmou, é coordenar esses elementos em torno de objetivos comuns.
“Cooperar é diferente de coordenar. No futebol, todos podem querer fazer o gol, mas se o time está descoordenado, cada um não sabe exatamente qual é a sua função. O ecossistema de inovação é importante porque coloca governo, setor produtivo e academia na mesma mesa para alinhar papéis e unir forças de forma coordenada”, comparou Almeida Filho.
O secretário defendeu o alinhamento dos ambientes de inovação à Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e à política industrial, bem como o aprimoramento de instrumentos, como a Lei do Bem, para estimular centros de pesquisa e desenvolvimento em parques tecnológicos. Também ressaltou a importância de alinhar a formação de talentos às demandas tecnológicas das empresas, fortalecendo a conexão entre educação, pesquisa e setor produtivo.
Na etapa de perguntas, participantes da plateia trouxeram temas como prestação de contas em projetos de inovação, inovação no comércio e nos serviços, formação de talentos técnicos e infraestrutura para pesquisa e desenvolvimento. As respostas reforçaram a importância de articular políticas públicas, financiamento, ambientes de inovação, empresas e instituições de ensino para ampliar o impacto dos ecossistemas nos territórios.
No encerramento, Toledo ressaltou que as experiências internacionais apresentadas servem de inspiração para o fortalecimento do sistema nacional de inovação, respeitando as condições e vocações brasileiras. A plenária abriu a Conferência Anprotec 2026, destacando a consolidação dos ecossistemas como caminho para transformar conhecimento, tecnologia e empreendedorismo inovador em desenvolvimento econômico sustentável.
Sobre a Conferência Anprotec 2026
A 36ª Conferência Anprotec de Empreendedorismo e Ambientes de Inovação acontece de 29 de junho a 2 de julho de 2026, em Manaus (AM), no Centro de Convenções do Amazonas Vasco Vasques, com o tema “Consolidando Ecossistemas: Empreendedorismo Inovador para a Economia do Futuro”. A edição é realizada pela Anprotec em parceria com o Sebrae, com organização local da Fundação Paulo Feitoza (FPFtech) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Programação e inscrições em anprotec.org.br/conferencia2026.